sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

O UÍGE E O INÍCIO DO TERRORISMO

Cidade do Uíge - antiga Carmona - nos anos 2000


---Assim que eclodiu nas ruas dos Congos Belga e Francês, a feroz perseguição aos colonos brancos, desde logo se começou a falar na possibilidade de, em Angola, mais concretamente no Congo Português, ser necessário tomarem-se providências para evitar as catástrofes de Brazaville. O Catanga sentiu-se impelido para a guerra, tentando a secessão, além de haver um antagonismo latente entre o Presidente do Congo Zaire, Kasavubu e do Primeiro Ministro P. Mumumba, que acaba por ser assassinado em 1961. A par disso... as potências estrangeiras vão-se intrometendo... porque há que garantir uma presença que lhes garanta a manutenção de previlégios comerciais...
---Ouviam-se, aqui e além, notícias inquietantes, perturbadoras, que davam conta de tumultos que se espalhavam um pouco por toda a África... e pela Ásia. Falava-se de confrontos na Argélia, que esteve em guerra entre 1954 e 1957, acabando por se tornar independente em 1962; de guerra na Indochina, que se eternizou entre os anos de 1946 a 75, abrangendo os territórios do Vietname, Laos, Tailândia e Cambodja; do terror em Nairobi, provocado pelas seitas Mau-Mau, que colocaram o Quénia a ferro e fogo, entre os anos de 1952 a 56, vindo a culminar com a independência em 1963; de lutas no Ghana...
---Um punhado de gente de boa vontade, entre os quais Montanha Pinto, Manuel Agre, João Ferreira, Manuel Manso, os irmãos Baganha, Jesuíno Dias, Fernando Santos e muitos outros, começa por solicitar ao Governador do Distrito que esteja atento aos movimentos de homens vindos da fronteira... mas nada fica decidido, até ao dia 4 de Fevereiro de 1961, quando o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) assalta uma Esquadra da Polícia de Segurança Pública de Luanda, a Casa de Reclusão Militar, a Cadeia de S. Paulo e a Delegação da Emissora Nacional . Claro que as Autoridades Portuguesas reprimiram violentamente esta "ousadia", não contando que também a UPA (União dos Povos de Angola), a 15 de Março, dirige sangrentos ataques contra os colonos e interesses portugueses no Norte do território, tendo-se iniciado assim a Guerra Colonial. Mais uma vez os homens do Norte pedem providências ao Governador... mas acabam por ser eles a providênciar a defesa de pessoas e bens e a dos seus entes queridos. Aqueles que tenham uma caçadeira sentem-se aptos para a defesa, que não é coisa de somenos importância, se considerada a selvajaria havida nos primeiros recontros. Se os "turras" tinham a intenção de fazer uma união entre os colonos, estavam mesmo a conseguir. Apesar de muitos terem optado pelo regresso à distante Metrópole , outros houve que decidiram defender o fruto do seu trabalho, até às últimas consequências. Eram os primeiros "voluntários" de Angola. Os "ventos da História" sopram, inexoráveis, de "Cabinda ao Cunene", no dizer do líder do MPLA. Os líderes africanos levam ao Conselho das Nações Unidas a palavra contra a presença de Portugal em África... mesmo que no final afirmassem que Portugal não poderia abandonar os Povos de Angola, Moçambique ou Guiné ao seu destino. Claro que não se acreditava muito na sinceridade de tais afirmações, até porque Portugal era pequeno demais para permanecer em África, quando algumas das grandes potências tiveram que retirar. A mensagem é "Para Angola, rápidamente e em força!...", mas são as gentes do Uíge a dar enormes lições de determinação e vontade de permanecer.
---Mal sabiam eles que uma corja de cobardes preparava o acabar de um sonho, o abandono de uma grandeza de 500 anos, que haviam levado Portugal à categoria das grandes Nações do Mundo. Aqueles a quem a história recente chama de "Capitães de Abril" abriu portas àquilo que o empenho dos Estados Unidos e da União Soviética, juntamente com outros abutres ou hienas, desejosos de lançar as garras sobre os despojos por nós deixados, tornaram inglório o esforço daqueles que fizeram aquela que é, hoje, a grande Nação Angolana... entregue nas mãos de gente que jamais pensou que lhes fosse entregue, de mão beijada, o valioso espólio de uma terra que foi generosamente regada pelo sangue de muitos Heróis.
---Certamente que os seus espíritos, um dia, clamarão por justiça... desconhecendo-se quem estará em condições de prestar contas pelo sangue por eles vertido.

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